O suicídio é sempre um tema sensível de ser abordado. Aliás, todos os temas que envolvam morte o são. Apesar de ser a coisa mais certa que temos na vida, ainda existe muita relutância em pensar e falar sobre este tema. Eu penso que será assim para sempre. Não temos educação para a morte porque são raras as pessoas que a encaram como natural. E encarar como natural não é pensar "pois... tem de ser assim. É a vida". Não. Não basta pensar assim, é necessário agir em consonância. Esta é, sem dúvida, a parte mais complicada, não é? Agir como se a morte fosse natural. Ela dói, faz-nos sangrar, faz-nos até querer morrer juntamente com aqueles que morrem e nos são tão queridos. É difícil aceitar que aquela pessoa não vai estar mais ao nosso lado. Difícil consciencializar que já vivemos tudo o que tínhamos para viver com aquela pessoa.
Para além de todos estes sentimentos de tristeza e angústia, a morte por suicídio traz consigo também, na grande maioria dos casos, o sentimento de culpa.
Perguntas como "porque não notei que ele não estava bem?", "eu devia ter sentido a tristeza que ele tinha..." , "se eu tivesse estado mais presente isto não tinha acontecido". Estas questões são muito comuns e é necessário ter noção de que elas só levam a pessoa para um caminho de amargura e de sentimentos negativos que são prejudiciais.
Nós não sabemos, nunca sabemos como se sente realmente uma pessoa. Por muito próxima que seja de nós e por muito que a conheçamos "melhor do que ninguém". E até conhecemos. Mas existe sempre o "eu" e o "tu", que separa aquilo que sentimos daquilo que o outro sente. Por muito empáticos que sejamos.
A pessoa está mesmo ao nosso lado e agora ela sorri, brinca connosco, solta umas gargalhadas e aparentemente está tudo ajustado. Por dentro, pode estar um caos e isso não transparecer absolutamente nada... a nós, que estamos mesmo ali ao lado. Ninguém consegue ser o outro, entrar no outro, ver o outro como se fosse... o outro. Ninguém. Porque ninguém é o outro. Por muita empatia, amizade, relação. E é bom ter consciência disto para tentar evitar culpas... Culpa de não ter visto, sentido, percepcionado. Não há falhas quando fazemos o melhor que podemos e quando vamos até onde nos é permitido ir. Somos apenas humanos, como todos os outros.